26 de mai de 2011

Vestígios de Alice - III

"Hanging so high for your return, but the stillness is a burn. Had I seen it in your eyes, there'd have been no try after try, your leaving had no goodbye, had I just seen one in your eyes...
12.03.1994

Dear Jam,

Como vai você? Tudo bem? Como está a Terra Gelada? Ontem estava a olhar as cerejeiras no jardim e pensei em você. Sim, nada tão irônico, algo que nos uniu agora nos separa: nosso jardim. Já não consigo olhar o que um dia floresceu tanto os meus dias. Já não consigo sentir seu aroma dentre as pétalas verdes, amarelas.. dentre nossas cerejeiras. Atravesso aos poucos esse nosso lugar e não consigo lembrar da última vez que estivemos juntos. Você lembra? O que emerge na sua memória? Quais são suas lembranças? O que você sente? Quem é você? Já não o conheço mais, e apesar dos esforços.. parte de você ainda vive em mim. Parte das suas muitas partes, dos seus muitos eus. Algo como seus sorrisos, seus gritos e suas cambalhotas no chão. Não sei quem você é. Não sei quem você foi. E, sinceramente, não sei se o silêncio me ajuda a saber. Só sei que você não preenche mais meus pensamentos tão vazios. Você, um passado cada vez mais passado. Enterrado, soterrado, engolido pela força da distância e do silêncio. Você se importa? Não? Você já chorou alguma vez? Você já sentiu alguma vez? Alguma vez você foi verdadeiro? Lembra dos meus vestígios? Lembra de mim? Cartas rasgadas, jogadas, discos rachados. Letras riscadas, caixas quebradas. Vestígios de Alice. Meus vestígios. Seus vestígios. Nosso amor. Destruído, colocado no lixo. Você quem fez isso? Foi você que passou a acreditar que os vestígios já não faziam parte de nós? O que aconteceu? O que você fez comigo? Vestígios de Alice. Vestígios de um amor. Lembranças de um jardim. Nossos discos, nossas rimas pobres de amor. Suas mentiras. Suas falsas promessas. Minhas tentativas. Minha ingenuidade. Meu amor. Sua vida. Seus muitos eus. Suas lágrimas. Sua distância. Suas auto-sabotagens. Sua auto-destruição. Nossos, minhas, seus. Tudo atravessado, recolhido, recortado. Tudo colado em pedaços. Nossos pedaços. Seus pedaços. Meus pedaços. Tudo aqui, jogado, na cama, no chão, na parede. Tudo lá, na cama do canto da parede. Noites, dias, tardes. Pedaços. Apenas pedaços. Você me fez acreditar que talvez fosse real, mas era apenas mais uma história para seus livros. Era apenas mais um conto, uma poesia, uma história. Um romance. Destruído. Amargurado. Eu era apenas mais uma linha no seu livro. Uma linha. Um nó. Um 'entre'. Uma palavra. Um gesto. Dois discos e muitas cartas. Agora riscados e rasgados. Meus vestígios. Seus vestígios. Nossos, até o dia em que você resolveu voltar a ser aquela velha pessoa. Até o dia em que você destruiu nosso jardim e matou nossas cerejeiras.
E apesar de tudo, confesso que estou bem, estou forte. Passei da época de achar que não fui boa o suficiente. Eu fui, muito mais do que você.

Com [ainda] amor, Alice. 

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