29 de abr. de 2011

Vestígios de Alice - I

Em um dia qualquer, em cima da mesa, o livro "conversações", canetas, corretivos, relógios marcados, fotos rasgadas e cartas no chão. Alice sabia que algo estava acontecendo, que algo seria maior do que tudo isso, que talvez ela não entendesse quais os seus sentidos, seus problemas, suas ruínas..

O livro, as canetas, as cartas, fotos, relógios, camas bagunçadas, papéis rasgados, ouvidos tampados.. Uma breve sensação de que tudo ao se redor estava se acabando aos poucos, poucos, poucos. Sua paz, eminentemente frágil e ingênua, já não era paz... seu caos já não correspondia a sua bagunça. Tudo estava revirado, tudo estava quebrado, tudo estava rompido.

Sua vida, seus livros, sua televisão, seu quarto. Seu aparente lugar e sua destruição falida. Será que ela estava ficando louca? Abria o guarda-roupa, encontrava vestígios de amores, promessas e razões para continuar. Abria suas gavetas, encontrava contas, apostilas, xérox. Todas as suas pequenas aquisições a fazendo lembrar que não queria mais viver debruçada em um passado, amargurada em ilusões e tentativas.

Tentou, por todas as horas, minutos e segundos, entender o que se passava, e cada vez mais chegava a conclusão que sua vida já não se passava, apenas se arrastava. Alice, sua paz, sua vida, seu quarto, seus vestígios. Onde você está Alice? O que você quer? O que você deseja? Papéis jogados na cama, fotos rasgadas no chão, promessas quebradas... vestígios de Alice.

26 de mar. de 2011

Acorda, seu sono não é paz.

Dentre noites não dormidas e dias não vividos ela arrastava seus pés no chão frio da casa. A noite passou, o dia começou, e a terrível constatação: apenas conseguiu dormir três horas. Acorda, seu sono não é paz.

Então, ela acordou, e pensou, pensou, pensou consigo mesma, formas, passos, caminhos, ideias, qualquer coisa que pudesse eliminar por algum instante aquela dor ou cessar aquelas lágrimas.

Deitou na cama, conversou com a mãe, fingiu estar bem. Disse em algumas poucas palavras algo que a mãe nunca entenderia, e partiu para a cozinha. Ela achou que fazendo um sanduíche ficaria melhor. "Deve ser fome, fome".

E enquanto o sanduíche estava sendo tostado, o cheiro de queijo fresco subindo nas paredes da cozinha.... ela começou a pensar em tudo o que poderia fazer, novamente, novamente, novamente, até chegar a um ponto em que soube que o cheiro do pão não a estimulava. E chorou, chorou, chorou, suas lágrimas se misturando ao pão, ao cheiro, as paredes da cozinha, tão brancas.. tão parte de tudo e tão parte dela. Pegou o pão na mão, olhou, olhou e não sentiu vontade de comer um só pedaço.

Foi aí que descobriu que o problema talvez fosse um pouco pior. Sim, estava sofrendo. Agora, só restava uma coisa seca, um olhar indefínivel, palavras proferidas ao vento...

Por alguns instantes, ela fechava os olhos e deixava aquilo tudo guiar a sua vida. Ela deixava as suas mãos deslizarem no teclado, até chegar a conclusão de que sim, sofria, chorava, sofria, chorava, sofria, chorava, e sofria e chorava, e não sabia mais o que tinha entre o sofria e o chorava. Por tempos, não sabia o que era amar, ou se doar, ou sofrer. Por tempos não sabia que as três coisas estavam atreladas e que, ao mesmo tempo, as três se anulavam. 

Parece incrível acordar e, mesmo não acreditando em nada, ainda assim levantar, escovar os dentes, tomar banho, andar nas ruas. 

Ela não sabia que era amor, ou que era essa coisa enorme que, ao fim, fosse destruir tanto tudo dentro dela.

15 de mar. de 2011

E decidiu...

E decidiu: vou voltar a escrever...como se não fosse tarde, como se não fosse hoje, como se não fosse amanhã. 
Que todo esse fogo, todo esse grito e toda essa resistência sejam um pouco mais vivos do que o cotidiano consumido, estragado. Que todas essas palavras entre nós e linhas sejam mais vermelhas e sangrentas do que essas ruas sujas.

Então, ela decidiu: por que não agora? Por que não hoje? Vou voltar a escrever para me sentir mais viva e mais consciente de todas essas cotidianidades. Vou voltar a escrever para não me perder dentre os espaços das horas e dos minutos e dos segundos. Vou voltar a escrever para dividir minha dor com alguém. Vou voltar a escrever para não dividir minha dor com alguém. Vou voltar a escrever para sangrar até a última gota, para dizer que estou mais viva agora depois que te conheci. 

Vou voltar a escrever para contar a nossa história ou para contar a minha história. Vou voltar a escrever porque foi a escrita que criou o nosso encontro, que flagrou o nosso desejo e perpetuou o nosso amor. Vou voltar a escrever para contar mais mentiras e subvertê-las em verdades, já que...

as minhas verdades me bastam, mesmo que sejam mentiras. (c. f)



Você não entenderia.

De todas as coisas, todas as palavras, todos os fatos e todas as mágoas: não, você não entenderia. 

Todos os dias você chega em casa, liga o computador, checa os e-mails, acessa a orkut / facebook. Fala com os seus colegas e amigos, conversa sobre trivialidades, escuta música, depois come, escova os dentes e se prepara para dormir.

Você está chateado, sem saco, estressado, querendo mandar o mundo se foder, e sempre chega aquela pessoa em algum chat descarregando a sua vida para você. Com calma, parado, você se pergunta: que porra é essa? ou, em outras palavras, what a fuck? E aí a pessoa passa o tempo inteiro falando o quanto a sua vida é ruim, o quanto o seu relacionamento está péssimo, como poderia ser melhor, em quais circunstâncias poderia ser melhor, e você, do outro lado, pensando: todos os dias sempre o mesmo: as mesmas palavras, as mesmas raivas, as mesmas frustrações e as mesmas tristezas. Chega a um ponto em que você até pensa se todas as pessoas são sempre assim.. um mesclado de narcisismo com egoísmo, uma pitada de autoexigência e um tempero de perfeccionismo. 
Você começa a questionar se isso tudo é só um momento, ou se todos os momentos são parecidos e as pessoas apenas mudam de roupagem. Você pensa em tudo e chega a conclusão que esse texto talvez seja uma crônica de relacionamentos afetivos falidos. Yeah, pós-modernidade em voga e todos estão falidos, fodidos, amargos, mal pagos; inclusive você, e tudo não passa de um grande WHAT A FUCK, em letras garrafais, vermelhas, italícas, bordados, riscados e tudo o mais.
Você não entenderia. Você não é capaz de entender se você não pára de olhar pro seu próprio umbigo, pra sua própria vida, pro seu próprio relacionamento falido, pós-moderno, caótico. E no dia que tudo se acabar, você vai sentir um vazio tão enorme.. e vai se perguntar cadê seus amigos. 
E os meus amigos, cadê? 

Talvez você esteja lendo isso e se identificando. Talvez você seja o amigo falido, ou talvez você seja o que vai dizer: "você não entenderia". Talvez você leia e não concorde em nada. Talvez você seja ingênuo demais em acreditar que o céu  é azul. Mas, eu digo, caro colega: são poucos os que te dão bom dia.




13 de fev. de 2011

31 de jan. de 2011

Um ser taciturno

Uma vez uma pessoa me disse que eu sou um ser taciturno. Sim, taciturno.
Eis aqui a significado de taciturno:

adj. Que fala pouco; calado, silencioso.
Triste, tristonho, sombrio.
Talvez isso seja um pouco Clariceano demais, mas, sim, sou um ser silencioso, inquieto, imprevisível e sombrio. Não sei ser diferente: sou intensa demais, e como diz Maiakovski, "sou toda coração, em todas as partes pulso". Sim, sim, sim. Quero gritar, quero correr, quero dormir, quero viver, quero falar, quero entender: na minha hora, do meu jeito.

Prefiro falar por silêncios. Gosto de adivinhar o mais estranho e absurdo pensamento seu. Gosto de brincar com olhares. Prefiro não dar sentido à nada. Não quero sentido. Não quero palavras. Não quero nada.

A verdade é que sempre esperei muito das pessoas, quando muitas vezes nem eu mesma posso dar o que quero. Mas, agora, não quero nada. Eu não quero você, não quero ele, não quero ela. Não quero suas palavras e não quero sua vida. Não quero aos pedaços, não quero pouco. Não quero viver com a terrível constatação de ter tudo hoje, e não ter nada amanhã. Talvez ninguém queira.

Talvez por isso seja tão difícil ter encontros verdadeiros, singelos, puros. A maioria das pessoas não se entregam ao perigo de viver, de se arriscar, de se doar por inteiro. É tão mais fácil criar um escudo e continuar vivendo. É tão mais fácil se anestesiar e não se arriscar. É tão mais fácil viver, mas não estar vivendo, de fato.

Eu não me isento disso. (I'm not living, I'm just killing time) De tempos em tempos, crio verdadeiros escudos e carapuças que me impedem de ser o que realmente sou. E, então, vivo por viver. Vivo matando meu tempo. Vivo por ter que acordar 7 horas da manhã e ir realizar tarefas matinais. Vivo por dinheiro, ou pelo simples fato de que preciso "ter dinheiro". Crio em mim uma verdadeira ideia de que sou mais feliz em esconder o que tem de mais bonito  em mim: eu mesma.

Não fuja de você. Pense, grite, corra, viva, se arrisque. Você é bobo? Seja você. Seja o Tom Hansen da Summer. Seja o Joel Barish da Clementine. Seja o idiota que você sempre foi.

Você a ama? Então mostre isso. Fale isso. Quebre pratos. Saia na chuva. Corra. Grite novamente. Chore. Sofra. Tente novamente falar o quanto você a ama. Se nada surtir efeito, chore novamente. Chore. Chore. Chore. Chore. Por dias, noites, madrugadas, vidas. Mas, depois, levante-se. E, não esqueça: continue na busca, sempre.

27 de jan. de 2011

Entre nós.

"Às vezes parece até que a gente deu um nó"
Quando tudo pareceu sem tom, sem graça, sem som, você chegou. Sim, você. Eu não esperei em nenhum momento pela "grande pessoa", pelo "grande momento", ou pelo "grande amor". Já não acreditava em grandes, absurdos e mágicos amores. Já não acreditava que em algum momento existiria uma contemplação interior tão imensa e tão intensa que me perderia dentre os nós. Agora os nossos nós se perderam entre eu e você. 

Já não acreditava em bons dias, boas tardes e boas noites. Já não acreditava em momentos únicos e desconsertos necessários. Durante algum tempo, vivemos um mundo paralelo e não acreditamos estar no mesmo lugar. Eu estava aqui, você estava aí, mas, ao mesmo tempo, entre os nossos nós e nossos eus, estavámos no mesmo lugar.

Deito-me nos seus braços e peço para que fique em silêncio. Comunicamos aos nossos muitos eus o sentimento de olhar, de contemplar, de sentir tudo o que se passa ao nosso redor. Ao pôr-do-sol, enquanto olho os seus olhos, penso: chegamos perto da perfeição.

As nossas paredes são limites. O nosso amor é uma pequena amostra desse lugar.  Pequenos, breves e sarcásticos momentos vivemos enquanto outros olham e pensam: como são singelos os seus olhares, tão ilegais.

Penso nesses nós e nesses eus. Penso em você e em mim. Eu poderia morrer agora e ainda lembrar que me baguncei inteira dentro de você e agora estou perdida. Poderia ir embora agora e ainda assim lembrar que estive perto da ideia mais sensível e singela de "amor". Poderia escrever um livro com as linhas e os nós, com as palavras e os gestos. Poderia desenhar todos os seus movimentos e gravar no meu eu mais íntimo. Poderia escrever em mim todas as suas palavras, poderia fincar no meu coração os nossos dias. Poderia escrever o mundo nas suas mãos e te dar de presente o que tem de mais bonito em mim. Entrego à você os meus nós e as minhas linhas. Receba-me.